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domingo, 30 de agosto de 2009

A Educação


É pela educação que as gerações se transformam e aperfeiçoam. Para uma sociedade nova são necessários homens novos. Por isso, a educação desde a infância é de importância capital.

Não basta ensinar à criança os elementos da Ciência. Aprender a governar-se, a conduzir-se como ser consciente e racional, é tão necessário como saber ler, escrever e contar: é entrar na vida armado não só para a luta material, mas, principalmente, para a luta moral. É nisso em que menos se tem cuidado. Presta-se mais atenção em desenvolver as faculdades e os lados brilhantes da criança, do que as suas virtudes. Na escola, como na família, há muita negligência em esclarecê-la sobre os seus deveres e sobre o seu destino. Portanto, desprovida de princípios elevados, ignorando o alvo da existência, ela, no dia em que entra na vida pública, entrega-se a todas as ciladas, a todos os arrebatamentos da paixão, num meio sensual e corrompido.

Mesmo no ensino secundário, aplicam-se a atulhar o cérebro dos estudantes com um acervo indigesto de noções e fatos, de datas e nomes, tudo em detrimento da educação moral. A moral da escola, desprovida de sanção efetiva, sem ideal verdadeiro, é estéril e incapaz de reformar a sociedade.

Mais pueril ainda é o ensino dado pelos estabelecimentos religiosos, onde a criança é apossada pelo fanatismo e pela superstição, não adquirindo senão idéias falsas sobre a vida presente e a futura. Uma boa educação é raras vezes, obra de um mestre. Para despertar na criança as primeiras aspirações ao bem, para corrigir um caráter difícil, são preciso, às vezes, a perseverança, a firmeza, uma ternura de que somente o coração de um pai ou de uma mãe pode ser suscetível. Se os pais não conseguem corrigir os filhos, como é que poderia fazê-lo o mestre que tem um grande número de discípulos a dirigir?

Essa tarefa, entretanto, não é tão difícil quanto se pensa, pois não exige uma ciência profunda. Pequenos e grandes podem preenchê-la, desde que se compenetrem do alvo elevado e das conseqüências da educação. Sobretudo, é preciso nos lembrar de que esses Espíritos vêm coabitar conosco para que os ajudemos a vencer os seus defeitos e os preparemos para os deveres da vida. Com o matrimônio, aceitamos a missão de os dirigir; cumpramo-la, pois, com amor, mas com amor isento de fraqueza, porque a afeição demasiada está cheia de perigos. Estudemos, desde o berço, as tendências que a criança trouxe das suas existências anteriores, apliquemo-nos a desenvolver as boas, a aniquilar as más. Não lhe devemos dar muitas alegrias, pois é necessário habituá-la desde logo à desilusão, para que possa compreender que a vida terrestre é árdua e que não deve contar senão consigo mesma, com seu trabalho, único meio de obter a sua independência e dignidade. Não tentemos desviar dela a ação das leis eternas. Há obstáculos no caminho de cada um de nós; só o critério ensinará a removê-los.

Não confieis vossos filhos a outrem, desde que não sejais a isso absolutamente coagidos. A educação não deve ser mercenária. Que importa a uma ama que tal criança fale ou caminhe antes da outra? Ela não tem nem o interesse nem o amor maternal. Mas, que alegria para uma mãe ao ver o seu querubim dar os primeiros passos! Nenhuma fadiga, nenhum trabalho detem-na. Ama! Procedei da mesma forma para com a alma dos vossos filhos. Tende ainda mais solicitude para com essa do que pelo corpo. O corpo consumir-se-á em breve e será sepultado; no entanto, a alma imortal, resplandecendo pelos cuidados com que foi tratada, pelos méritos adquiridos, pelos progressos realizados, viverá através dos tempos para vos abençoar e amar.

A educação, baseada numa concepção exata da vida, transformaria a face do mundo. Suponhamos cada família iniciada nas crenças espiritualistas sancionadas pelos fatos e incutindo-as aos filhos, ao mesmo tempo em que a escola laica lhes ensinasse os princípios da Ciência e as maravilhas do Universo: uma rápida transformação social operar-se-ia então sob a força dessa dupla corrente.

Todas as chagas morais são provenientes da má educação. Reformá-la, colocá-la sobre novas bases traria à Humanidade conseqüências inestimáveis. Instruamos a juventude, esclareçamos sua inteligência, mas, antes de tudo, falemos ao seu coração, ensinemos-lhe a despojar-se das suas imperfeições. Lembremo-nos de que a sabedoria por excelência consiste em nos tornarmos melhores.

(Léon Denis - Obra: Depois da Morte)

Site: Luz do Espiritismo - Grupo Espirita Allan Kardec

sábado, 25 de julho de 2009

A Pedagogia de Jesus


"(...) Ninguém melhor do que a figura de Jesus para mostrar o modelo máximo de estatura moral, aliada à confiança no ser humano e a uma prática educativa libertadora. Mas as polêmicas em torno da personalidade do Cristo têm sido tão acirradas em dois mil anos de história cristã, que não se pode deixá-las à parte, antes de aventar qualquer interpretação a seu respeito

Não poderíamos assim ignorar a questão da divindade de Jesus, pois que é justamente a tomada de posição em relação a esse tema que vai nos colocar na via de demonstrar que a sua pedagogia é de fato a pedagogia pleiteada pelo paradigma do espírito. Nos primeiros três séculos de Cristianismo, andava longe uma unanimidade a respeito da divindade de Jesus." (Pág. 108 à 109)

"(...) Durante esses primeiros séculos, várias interpretações a respeito da natureza do Cristo lutaram pela preponderância, mas as mais significativas foram justamente a católica- vigente até hoje - e a ariana. A primeira considera o mistério da encarnação divina, e, portanto, a existência de um Deus uno e trino,como dogma fundamental da crença cristã. A segunda admitia que:

"O Pai apenas é eterno e merece em sentido próprio o nome de Deus. Tirado do nada, o filho é a primeira, mas a mais excelente das criaturas; ele foi instrumento do Pai para a criação do mundo. Ele se encarnou em Jesus Cristo."

Ora, a vitória da versão católica deu-se por obra de Atanásio e Constantino. Este último, o imperador cristão, patrocinou o Concílio de Nicéia, no qual foi arbitrariamente declarado o dogma da divindade de Jesus. "A existência de Atanásio se concentra numa luta gigantesca contra o arianismo. (...)"" (Pág. 109)

"(...) Ora, Jesus veio ao mundo como mediador para redimir o homem e oferecer-se em sacrifício diante de Deus (ou seja, diante de si mesmo!), para restaurar a integridade humana. Pela queda de um homem, perdemo-nos todos. Pelo sacrifício de um Deus, redimimo-nos todos. Esta doutrina, reconhecidamente, não é de Jesus, mas de Paulo." (Pág. 112)

"Não sendo o Ser Supremo do Universo (desde a época da formulação do dogma da Trindade, esse universo se expandiu infinitamente e se aceitamos a existência de Deus, e a sua presença, governo e poder entre bilhões e bilhões de galáxias e em meio a prováveis inúmeras humanidades, fica mais difícil aceitar a idéia de uma encarnação sua na Terra), Jesus Cristo não se vulgariza com isso,tornando-se apenas mais um homem entre outros tantos. Ele seria o Espírito que já atingiu a perfeição como todos nós atingiremos um dia, segundo a lei da evolução. Portanto ele é a realização daquilo de que somos ainda potência. É a meta a ser atingida, por um processo de educação do espírito, nas sucessivas existências." (Pág. 113 à 114)

“Revelando um otimismo intrínseco em sua pregação e em sua ação, Jesus consegue enxergar o fio de conexão com o outro ser humano, para chamá-lo à realização da vida moral”. Desencadeia processos de regeneração, sem qualquer imposição externa. Conquista Madalena para fora da vida de desregramento, desperta em Zaqueu a consciência de ser menos avarento, e, mesmo depois da morte, aproveita o ímpeto destrutivo de Saulo de Tarso, canalizando-o para a divulgação apostólica do Cristianismo.

Realiza, pois, de forma mais eficaz e elevada, a idéia de Sócrates, de restituir o homem a si mesmo, pela prática de um diálogo informal, que transcorre à beira dos lagos, no alto dos montes ou no meio das praças. E o faz estabelecendo um vínculo amoroso com os discípulos, ao mesmo tempo em que apela para a sua autonomia racional." (Pág. 115)

“Que pedagogia era essa que praticava Jesus”? Herculano Pires refere-se a uma Pedagogia da Esperança:

"A educação não era mais o ajustamento do ser aos moldes ditados pelos rabinos do Templo, a imposição de fora para dentro da moral farisaica, mas o despertar das criaturas para Deus através dos estímulos da palavra e do exemplo. A salvação pela graça não era um privilégio de alguns, mas o direito de todos. Jesus ensinava e exemplificava e seus discípulos faziam o mesmo. Chamava as crianças a si para abençoá-las e despertar-lhes, com palavras de amor, os sentimentos mais puros. Nem os apóstolos entenderam aquela atitude estranha: um rabi cheio da sabedoria da Torá a perder tempo com as crianças. (.) Cada criatura humana é para ele um educando, um aluno (.) Assim, a Terra não é mais o paraíso dos privilegiados e o inferno dos condenados. É a grande escola em que todos aprendemos, em que todos nos educamos. A Pedagogia da Esperança oferece a todos a oportunidade de salvação, porque a salvação está na educação ."

A visão da vida na Terra como processo educativo faz sentido à luz da reencarnação, em que as almas estão em permanente aprendizagem. Por isso mesmo o cristão, que admite essa idéia, vê em Jesus muito mais o pedagogo da humanidade que o salvador." (Pág. 116 à 117)

"A natureza humana não corrompida, o livre-arbítrio como apanágio de cada alma individual e uma propensão natural ao aperfeiçoamento e à ascensão emprestam à educação cristã, proposta por Jesus, um ar refrescante de liberdade e naturalidade. Jesus não se impõe, não usa de coerção, nem mesmo de persuasão. Convida, exemplifica, serve e ama." (Pág. 117)

""Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve" (Lc. 22, 27) - aí se resume seu método pedagógico. Quem mais serve, por amor, é quem mais é capaz de fazer brotar o impulso do bem na alma humana. Quem mais se sacrifica, por amor, é quem mais alcança a intimidade do outro, para fazê-lo melhor." (Pág. 118)

"As duas vertentes do Cristianismo têm coexistido no decorrer da história - de um lado, a visão do homem, herdeiro do Criador, como capaz de projetar-se para a transcendência, de fazer-se santo, perfeito, e, nesta linha, propostas libertárias, igualitárias de educação. Do outro, a visão do pecado, da tragédia da queda, da corrupção inata, da necessidade de disciplinar e reprimir. Evidentemente, em muitas doutrinas e práticas, ambas as visões se conjugam, em nuanças intrincadas. A tese aqui levantada, entretanto, é a de que Jesus, propondo um modelo de educação humana, é o fundador da primeira tendência, que combina perfeitamente com a de Sócrates." (Pág. 118)

"Recuperado como mensagem de fraternidade, liberto do dogmatismo sectário, encarando-se Jesus como um pedagogo divino, que veio propor um programa de educação do espírito, em parâmetros de liberdade e amor, o Cristianismo é revisto pelo paradigma do espírito. O Espiritismo assim se anuncia como mais um ensaio histórico de retorno à essência cristã, ofuscada pelas instituições humanas, de poder e de dominação. E na raiz desta revisão, renasce a pedagogia de Jesus, como pedagogia da esperança: quem já realizou em si a divindade intrínseca de todas as criaturas, trabalha para despertá-la em seus irmãos de humanidade, confiando em sua capacidade de aperfeiçoamento autônomo. E daqueles que já pisaram no mundo, certamente Jesus foi quem a realizou de maneira mais completa e por isso sua mensagem e seu exemplo exercem poderoso influxo de mudança e ascensão."(Pág. 120)

INCONTR I, Dora. Pedagogia Espírita - um projeto brasileiro e suas raízes.

Bragança Paulista - SP. Editora Comenius, 2004.

Site: Luz do Espiritismo - Grupo Espírita Allan Kardec

sábado, 11 de julho de 2009

A Divindade de Jesus


Tentaremos, com este estudo, mostrar que esta questão é importante para nós os Cristãos.

Se tivermos a Jesus como o próprio Deus, é-nos difícil seguir seus ensinos, exemplificados em suas ações, pois tudo o que fez não servirá para nós como modelo de como fazer ou agir, visto ter partido de um ser que tudo pode, seria algo inatingível para nós os mortais. Por outro lado, com o conhecimento que vamos adquirindo através de estudos, vemos, como iremos demonstrar, uma perfeita consonância com os missionários divinos de religiões não cristãs, e com isto a crença em nossa religião fica bem abalada. E se, ao contrário, o colocarmos na condição de homem, ficaria muito mais fácil seguir seus exemplos, pois, de igual para igual, encontraremos forças para aplicar os seus ensinos.

Mas afinal, quando Jesus foi considerado Deus? Desde o início do cristianismo? O que pensavam seus discípulos sobre o assunto? O que o povo e Ele mesmo pensavam?

Para respondermos essas perguntas, primeiramente iremos recorrer ao Evangelho.

a) O que o povo pensava

Mt 16,13-14: "Tendo chegado à região de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem por ai as pessoas que é o filho do homem?’ Responderam: ‘Umas dizem que é João Batista, outras que é Elias, outras enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas’".

Mt 26,67-68: "Então, cuspiram no seu rosto e cobriram-no de socos. Outros lhe davam bordoadas. E lhe diziam: ‘Mostra que és profeta, ó Cristo, advinha quem foi que te bateu?’"

Jo 7,40: "Muitos daquela gente que tinham ouvido essas palavras de Jesus afirmavam: ‘Verdadeiramente ele é o profeta’".

Jo 9,17: "Perguntaram ainda ao cego: ‘Qual é a tua opinião a respeito de quem te abriu os olhos?’ Respondeu: ‘É um profeta’".

b) O que os discípulos pensavam

Lc 24,19 "... Jesus de Nazaré foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e do povo".

At 2,22: "Homens de Israel, escutai o que digo: ‘Jesus de Nazaré foi o homem credenciado por Deus junto a nós com poderes extraordinários, milagres e prodígios. Bem sabeis as coisas que Deus realizou através dele no meio de vós’".

c) O que dizia Jesus

Lc 13,33: "Entretanto devo continuar meu caminho hoje, amanhã e no dia seguinte, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém".

Jo 8,40: "... Procurais tirar-me a vida a mim que sou homem, que vos digo a verdade que de Deus ouvi". ...

Mc 6,4-5: "Mas Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só deixa de ser honrado em sua pátria, em sua casa e entre seus parentes. E não podia ali fazer milagre algum’". (Argumento que utilizou para justificar por que Ele não conseguia fazer milagres em Nazaré).

Observamos, assim, que o povo e os seus discípulos acreditavam que Jesus era um profeta, o que foi confirmado pelo próprio Jesus.

Na passagem de Jo 14,12-13, ele diz: "Eu vos afirmo e esta é a verdade: quem crê em mim fará as obras que eu faço. E fará até maiores, porque vou ao Pai, e o que pedirdes ao Pai em meu nome eu farei, para que o Pai seja glorificado no filho".

Se seguirmos a linha de raciocínio que Ele seja Deus, nós também seríamos deuses, pois segundo suas próprias palavras, poderíamos fazer o que ele fez e até mais. Vemos que não há como considerá-lo Deus.

A base central desta linha de pensamento de que Ele era Deus, basicamente vamos encontrá-la em Jo 10,30: "Eu e o Pai somos um". Com isto chegaram à conclusão de que se o Pai é Deus e Jesus sendo um com o Pai, por conseguinte também seria Deus. Conclusão, digamos apressada é o dogma da Santíssima Trindade. Mas somos levados a crer, que esta trindade é incoerente, pois não pegaram o sentido da frase, apegaram-se à letra. Mas por que não tiveram a mesma linha de pensamento nesta outra passagem de João (17,20-23)? - "Não rogo somente por eles, mas também por todos aqueles que hão de crer em mim pela sua palavra. Que todos sejam um! Meu pai, que eles estejam em nós, assim como tu estás em mim e eu em ti. Que sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e que os amaste como tu me amaste". Não seria o caso de dizer então que os discípulos eram deuses?

Em outras passagens, Jesus se coloca na condição de subordinado a Deus, prestando-lhe obediência e cumprindo-lhe a vontade. Não há como negar que quem é subordinado está sob ordens de alguém que lhe é superior, vejamos:

Jo 4,34: "Jesus afirmou: ‘Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a levar a cabo a sua obra’".

Jo 5,19: "... Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer".

Jo 5,30: "Não posso fazer nada por mim mesmo. Julgo segundo o que ouço; e o meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou".

Jo 6,37-38: "Tudo o que o Pai me dá, virá a mim e não jogarei fora o que vem a mim, porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou".

Jo 14,28: "Se me amásseis, vos alegraríeis de que eu vá ao Pai, porque o Pai é maior do que eu".

Nessa última passagem, é bem taxativa a superioridade do Pai sobre Jesus. Não há como contestar.

A questão da divindade de Jesus, rejeitada por três concílios, dos quais o mais importante foi o de Antioquia (269) foi, em 325, proclamado pelo de Nicéia. Após a declaração de que Jesus era Deus, vem para encaixá-lo nada mais foi que uma cópia da base fundamental de outras religiões, bem mais antigas que o Cristianismo. Podemos citar as que constam do Livro O Redentor de Edgard Armond:

Brahma, Siva e Vischnu – dos hindus

Osíris, Isis e Orus – dos egípcios

Ea, Istar e Tamus – dos babilônios

Zeus, Demétrio e Dionísio – dos gregos

Orzmud, Arimam e Mitra – dos persas

Voltan, Friga e Dinas – dos celtas

Achamos muito interessante o estudo do Dr. Paul Gibier (O Espiritismo –o faquirismo ocidental) em que ele coloca: "Uma das analogias mais notáveis do Catolicismo, não com o Budismo, mas com Bramanismo, encontra-se em uma das encarnações de Vischnu (filho de Deus) sob a forma de Krischna".

"Krischna, que alguns autores escreviam Christna ou Kristna, foi concebido ‘sem pecado’, seu nascimento foi anunciado por profecias numerosas e muito antigas. Sua mãe Devanaguy, o concebeu por obra de um Espírito, que lhe apareceu sob os traços de Vischnu, segunda pessoa da Trindade Hindu. Segundo a tradição Hindu e o ‘Bhagavedagita’, anunciando uma profecia que ele destronaria seu tio, o tirano de Madura, este último mandou encarcerar sua sobrinha Devanaguy, que foi libertada por Vischnu; então o tirano mandou assassinar em todos os seus estados as crianças do sexo masculino nascidas na mesma noite em que Krischna viu a luz (grifo do original). Mas o menino foi salvo por milagre, e, 3500 anos mais ou menos antes de nossa era, ele pregava a sua doutrina. Depois de converter os homens, morreu de morte violenta as margens do Ganges, segundo ordens de Brahma (Deus, o Pai), para realizar a redenção dos homens, como lhes fora prometido".

Parece que tudo se encaixa na tradição cristã a respeito de Jesus, talvez até fosse necessário, considerando a cultura da época, torná-lo um Deus, para que as pessoas pudessem acreditar em seus ensinos, entretanto, achamos, que para os dias de hoje isto poderá causar mais incrédulos, por uma coisa bem simples é que o homem moderno coloca a razão e a lógica como base para acreditar ou não em algo, e agindo assim também em relação à crença religiosa, terá uma fé inabalável.

Com relação a Jesus, poderemos afirmar com absoluta certeza que Ele era um ser superior a nós humanos, sem, entretanto, chegar a ser um Deus, principalmente pelos seus ensinos e exemplos de vida, virtudes essas que serão o nosso passaporte para o "Reino dos Céus", pois somente através Dele é que chegaremos ao Pai, conforme suas palavras: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão através de mim" (João 14,6).

3.12 - Ressurreição

No dia 18.04.96 o jornal Estado de Minas, publicou na página 17 a coluna "Um dia no Mundo", o seguinte texto:

RESSURREIÇÃO

A britânica Maureen Jones, 59 anos, foi oficialmente declarada morta por um médico depois de sofrer um ataque de diabetes. Momentos depois, cumprindo função de rotina, policiais examinaram o corpo e, mexendo em suas pernas, a ressuscitaram. Este foi o segundo caso deste tipo neste ano na Grã-Bretanha. Em janeiro, a mulher de um fazendeiro, Daphne Banks, 61 anos, foi encontrada viva dentro de um necrotério, na região central do país, depois que um médico a declarou morta. Mais tarde, Daphne disse que estava tentando se matar.

Este texto levou-me a pensar. Realmente acontece a ressurreição, onde a alma da pessoa que morreu voltaria a reviver no mesmo corpo? Ou estas mortes aparentes ainda não estavam no domínio da ciência? O que as religiões dizem a respeito.

Pela maioria das correntes religiosas tradicionais, todos nós ressuscitaremos um dia em nosso corpo físico, e após isto, seremos julgados, sendo o céu ou o inferno o nosso destino, conforme tenhamos praticado o bem ou o mal. Nelas a crença é da unicidade da existência humana, ou seja, nós só temos esta uma única vida em contrapartida com a reencarnação, ou várias vidas sucessivas, afirmada pela Doutrina Espírita.

Perguntaríamos: seria possível o corpo físico ser recomposto, para receber novamente o espírito que o animava? Entretanto, a Ciência vem nos dizer que o nosso corpo físico é composto de entre outros, dos seguintes elementos: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono, e que após a sua decomposição, estes elementos se dispersam para servirem de formação a novas matérias, sendo cientificamente impossível sua recomposição. Bem sabemos que a ciência é o conhecimento humano que busca descobrir as leis que regulam tudo no Universo, sendo, por conseguinte, estas leis, leis naturais ou Leis Divinas.

O apóstolo Paulo não possuía nenhuma dúvida sobre o assunto, porque teve a percepção clara de que não é o corpo físico que retorna à vida, vejamos em 1Cor 15,35-44: "Mas, dirá alguém, como é que os mortos vão ressuscitar? Com que corpo virão? Louco! O que semeias não reviverá, se não morrer antes. E o que semeias não é o corpo a se formar, mas grão nu, de trigo, por exemplo, ou de qualquer planta. E Deus lhe dá um corpo que bem entende, e a cada semente, o seu corpo apropriado. Toda a carne não é a mesma carne, mas uma é a carne dos homens, outra a carne das feras, outra, a carne das aves, outra, a dos peixes. Há corpos celestes e corpos terrestres; mas um é o esplendor dos corpos celestes e outro o dos terrestres. Um é o brilho do Sol e outro o brilho das estrelas. E uma estrela brilha diferente de outra estrela. Assim também na ressurreição dos mortos: semeado na podridão, o corpo ressuscita incorruptível. Semeado na humilhação, ele ressuscita glorioso. Semeado frágil, ressuscita forte. E semeando um corpo animal, ressuscita um corpo espiritual. Como há um corpo animal, há também um corpo espiritual".

Não faz ele a nítida distinção entre os dois corpos que possuímos, um o corpo físico e outro o corpo espiritual, sendo que é com este último que iremos ressuscitar no mundo espiritual ao qual retornaremos após a morte? Tão certo Paulo estava disto, que ele ainda afirma: "... A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus" (1Cor 15,50).

Existe no Evangelho passagem narrando fatos em que presumivelmente houve ressurreição, são em número de três: a da filha de Jairo (Mt 9,18-26; Mc 5,21-43 e Lc 8,40-56), a do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e a de Lázaro (Jo 11,1-44).

No primeiro caso, as narrativas são unânimes em afirmar que Jesus tinha dito que a menina não havia morrido, apenas dormia. No segundo, não se fala nada. E no terceiro, afirma que a doença de Lázaro não era para a morte, que ele dormia e iria despertá-lo, para no final dizer que ele havia morrido, contradizendo o que havia dito anteriormente.

Ao que tudo indica, todos esses casos poderiam ser de pessoas que sofriam de ataques catalépticos, que dão toda a aparência de morte, não seriam, portanto uma verdadeira ressurreição. Parecem com os casos citados no jornal, não? E isto hoje, com todo o avanço da medicina, onde é bem mais fácil detectar estes casos de morte aparente! Imaginem ao tempo de Jesus?

Mas à época de Jesus havia a crença de que uma pessoa poderia voltar. Só não era explicado como isto poderia ocorrer, senão vejamos: "Tendo chegado à região de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: ‘Quem dizem por aí as pessoas que é o filho do homem?’ Responderam: ‘Umas dizem que é João Batista; outras, que é Elias, outras enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas’ (Mt 16,13-14). E nesta outra: "Os discípulos lhe perguntaram: ‘por que dizem os escribas que Elias deve vir antes?’ Respondeu-lhes: ‘Elias há de vir para restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram. Do mesmo modo, também o Filho do homem está para sofrer da parte deles’. Então, os discípulos compreenderam que Jesus lhes tinha falado a respeito de João Batista" (Mt 17,10-13).

Nessas passagens fica claro que de uma maneira geral todos acreditavam que uma pessoa que havia morrido poderia voltar até mesmo num outro corpo, certo?

Interessante a conclusão a que chegamos, ao analisarmos tudo o que Jesus produziu de "milagre", o que resumimos abaixo:

"Milagres"

Quantidade

Percentual



1- Fenômenos com ele e com a natureza

11 casos

28,9%



2- Curas diversas

16 casos

42,1%



3- Exorcismo

08 casos

21,1%



4- Ressurreição

03 casos

7,9%



Total

38 casos

100%



Isso foi colocado, para que possamos raciocinar. Se realmente a ressurreição fosse algo possível, por que Jesus a produziu em pequeno número em relação a tudo o que fez? Por outro lado, algo de tão extraordinário, como fazer voltar à vida os nossos mortos, não seria óbvio que Jesus sofreria um assédio descomunal das mães pedindo-Lhe que fizesse o mesmo com seus filhos que haviam morrido? Mas não consta nos Evangelhos que Ele tenha passado por semelhante situação.

Podemos concluir que Jesus curou estas pessoas talvez portadoras de catalepsia, não ressuscitando ninguém que já havia de fato morrido, e o que se acreditava, em sua época, era que uma pessoa que já havia morrido poderia voltar a viver como outra pessoa, que é o que hoje entendemos por REENCARNAÇÃO.

4 - Conclusão

Procuramos mostrar alguns conceitos doutrinários do Espiritismo, para os que são leigos no assunto, e, principalmente, para provar que eles não contrariam em nada o que Jesus ensinou.

Vemos é justamente o contrário, ou seja, que a Doutrina Espírita procura desenvolvê-los de tal forma, que todos possam compreendê-los. Colaboramos para que a percepção da Bíblia seja racional. Temos o Antigo Testamento como um importante código moral, mas circunscrito somente à própria época em que foi utilmente aplicado. Somos conscientes de que devemos seguir somente o Novo Testamento, base fundamental dos ensinamentos de Jesus, pois, só assim, poderemos dizer-nos cristãos.

(texto extraído do livro "A Bíblia à Moda da Casa", Paulo Neto, Salvador-BA: Rede visão, 2002.)

Referências bibliográficas:

Novo Testamento, LEB – Edições Loyola, São Paulo, SP, 1984;

O Espiritismo (o faquirismo ocidental), Dr. Paul Gibier, FEB, Brasília, DF, 4ª Edição, 1990;

O Cristianismo: a mensagem esquecida, Hermínio C. Miranda, Matão, SP, Casa Editora O Clarim, 1ª Edição, 1988; Cristianismo e Espiritismo, Léon Denis. Brasília – DF, FEB, 8ª Edição;

O Redentor, Edgard Armond. São Paulo, SP, Editora Aliança, 6ª Edição;

Quando Chega a Verdade, José Reis Chaves, Martin Claret, São Paulo, 1a. Edição, 2001.

Site: Luz do Espiritismo - Grupo Espírita Allan Kardec